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Crédito não pára de aumentar. Vícios do passado estão a regressar?

A nova concessão de crédito às famílias continua a crescer. Crédito ao consumo é o que atinge níveis mais elevados e é uma das principais razões de preocupação.

Casa, carro, artigos para o lar ou férias. O percurso para a sua aquisição pelos portugueses passa cada vez mais pelo balcão do banco. Os níveis de concessão de crédito às famílias estão em máximos de pelo menos a década e até o “bolo” total dos empréstimos, que encolheu no seguimento da crise financeira, recupera para máximos de dois anos. Face a esse cenário impõe-se a questão: o aumento do crédito é um motivo de preocupação? No crédito ao consumo poderá haver mais.

Os últimos dados disponíveis mostram que, nos oito primeiros meses deste ano, os bancos concederam perto de 11 mil milhões de euros (10.821 milhões de euros) em empréstimos às famílias. Representa um aumento de 18% face ao verificado no período homólogo e é também o mais elevado desde o ano de 2010.

maior parcela desse montante resulta da concessão de empréstimos para a compra de casa. Entre o início de janeiro e o final de agosto, a banca disponibilizou 6.503 milhões em financiamento para a aquisição de habitação: 24,8% acima do verificado em 2017 e o valor mais alto desde também 2010.

Novo crédito às famílias a crescer

Já no caso do crédito ao consumo, a subida é menos acentuada, mas em valor representa um máximo de mais tempo. Nos primeiros oito meses deste ano, foram concedidos 3.132 milhões de euros em empréstimos para consumo, 17,4% acima do registado no mesmo período do ano passado, com o montante global a ser o mais elevado dos últimos 14 anos (2004). Ou seja, vários anos antes da crise financeira financeira espoletar.

Em paralelo, e após vários anos a encolher perante o fecho da torneira do crédito pelos bancos, o stock do crédito nas mãos das famílias vem a recuperar nos últimos meses, estando atualmente na fasquia mais alta dos últimos dois anos.

Segundo estatísticas do Banco Central Europeu (BCE), em setembro as famílias eram responsáveis por 116.404 milhões de euros em crédito, o valor mais elevado desde dezembro de 2016.

“Era uma questão de tempo até que isso viesse a acontecer. As amortizações dos empréstimos antigos são cada vez menores e, portanto, teria de haver um momento em que as entradas pudessem contar positivamente para o stock de crédito.”

Filipe Garcia

IMF

De forma desagregada, a maior parcela dizia respeito a empréstimos para a compra de casa — 93.795 milhões de euros –, com este a ser o mais alto desde março. Mas é no crédito ao consumo que se verifica a maior escalada nos montantes. O stock deste tipo de financiamento situava-se em setembro nos 15.039 milhões de eurosSerá necessário recuar até outubro de 2011 para ver um valor mais alto.

Stock do crédito ao consumo sobe há 11 meses

Filipe Garcia, economista da IMF, não identifica um problema no que respeita à evolução do stock dos empréstimos nas mãos dos portugueses. Encara aliás como sendo normal.

Era uma questão de tempo“, começa por dizer, explicando que “as amortizações dos empréstimos antigos são cada vez menores e, portanto, teria de haver um momento em que as entradas pudessem contar positivamente para o stock de crédito“. “Estamos a comparar muitas vezes créditos com amortizações já com dez ou 15 anos, com operações novas em que os montantes são mais altos”, complementa.

Crédito ao consumo preocupa mais

Mas no que respeita à nova concessão de empréstimos, a visão do economista já é diferente. Vê o crescimento como “relevante”, mostrando maior preocupação com os empréstimos ao consumo. “Esse, efetivamente, tem aumentado muito“, começa por dizer, atribuindo à banca a maior parcela da responsabilidade por essa evolução.

“Estamos perante um aumento da predisposição dos bancos em emprestar. E é isso que está na génesis deste aumento do crédito. E acho que isso é um risco“, avisa.

“Estamos perante um aumento da predisposição dos bancos em emprestar. E é isso que está na génesis deste aumento do crédito. E acho que isso é um risco.”

Filipe Garcia

IMF

Enquanto o quadro económico for favorável não são apontadas grandes razões de preocupação. A economia cresce e o desemprego está em mínimos de 16 anos. Contudo, uma inversão desse cenário pode representar riscos elevados, sobretudo para o crédito ao consumo cujo risco está muito relacionado com o desemprego.

“Se houver uma crise, naturalmente há alguns receios que se volte a repetir o cenário de pessoas sobreendividadas e a perderem os ativos, porque normalmente quem recorre ao crédito ao consumo tende a encostar os valores das prestações à sua disponibilidade financeira“, contextualiza.

E perante essa realidade, basta um pequeno deslize para criar uma bola de neve nos níveis de incumprimento. “Muitas vezes, um grande problema começa com um crédito pequeno e de uma forma inocente”, começa por dizer o responsável da IMF. “Contrai-se um crédito, atrasa-se umas prestações, depois substitui-se isso com o cartão de crédito e depois cancelam o cartão de crédito. Quando as pessoas dão por si estão a entrar numa agência bancária para fazer uma reestruturação do seu crédito”, dá como exemplo.

Têm sido, aliás, vários os responsáveis a alertarem para os riscos associados ao elevado endividamento das famílias e em especial no que respeita ao crédito ao consumo. Há cerca de um mês, Mourinho Félix, secretário de Estado Adjunto e das Finanças, alertou que o “crédito ao consumo deve ser seguido com muita atenção”.

Mais recentemente foi a vez de Luís Máximo dos Santos, vice-governador do Banco de Portugal também se focar nesse assunto. Lançou “farpas” ao atribuir à queda dos salários, mas também ao “hiperdesenvolvimento” da banca, a responsabilidade pela expansão dos níveis do crédito ao consumo.

A banca tem aliás focado muitas das suas campanhas promocionais na disponibilização de crédito ao consumo. Basta visitar os sites dos bancos, ver ou ouvir a publicidade nas televisões ou nas rádios para constatar essa aposta.

Subida dos juros expõe crédito à habitação

No que respeita ao crédito para a compra de casa, também têm surgido alguns alertas por parte dos responsáveis. Este tipo de empréstimos é, aliás, um dos principais alvos de um conjunto de recomendações do Banco de Portugal que os bancos tiveram de passar a adotar no início de julho e cujo objetivo é prevenir situações de sobreendividamento.

“No caso do crédito à habitação, hoje estamos a falar de um maior conservadorismo nas avaliações. Nem sempre se consegue 100% do crédito e os spreads já são um pouco mais altos.”

Filipe Garcia

IMF

Filipe Garcia considera que ainda assim os bancos estão a ser mais cautelosos nessa disponibilização face ao que aconteceu antes da crise financeira. “No caso do crédito à habitação, hoje estamos a falar de um maior conservadorismo nas avaliações. Nem sempre se consegue 100% do crédito e os spreads já são um pouco mais altos”, considera o economista.

Mas esse segmento de crédito não é imune a riscos. Os maiores motivos de preocupação estão na subida dos juros de referência. “O risco para as pessoas é a subida das taxas de juro. Estamos a falar de indexantes a 0%, com spreads em torno de 1,5%. Se as taxas vierem para valores de 3%, já vamos ter juros de 5%”, alerta, recomendando assim que os clientes prestem sempre atenção às análises de resistência a flutuações das taxas de juro de 2% ou 2,5% quando fazem um crédito para a casa.

Fonte: “Eco2 31-10-2018